Corrosão por maresia: o inimigo invisível das estruturas litorâneas
Por Fernando Henrique Machado Filho • Publicado em Julho de 2026
Viver ou gerenciar um imóvel no litoral catarinense traz privilégios inquestionáveis, mas também impõe um desafio severo à engenharia e à manutenção predial: a agressividade ambiental. Entre os agentes degradantes, a maresia se destaca como um dos fatores mais destrutivos para as estruturas de concreto armado.
Diferente do que muitos pensam, a maresia não afeta apenas a pintura ou os elementos metálicos aparentes. O verdadeiro perigo reside na capacidade que os íons de cloreto têm de penetrar no concreto, dando início a um processo silencioso de corrosão da armadura de aço oculta, comprometendo a estabilidade e a segurança da edificação a longo prazo.
Neste artigo, abordamos a mecânica desse fenômeno, os principais sinais de evolução da patologia e quais condutas preventivas e corretivas devem ser adotadas pelos condomínios para salvaguardar o patrimônio.
▲ Manifestação patológica típica: fissura longitudinal acompanhada por escorrimento de óxido de ferro (ferrugem), evidenciando a pressão interna exercida pela expansão da armadura oxidada.
Ficha Técnica
| Código | ART-002 |
| Categoria | Estruturas |
| Tempo de leitura | 7 minutos |
| Nível | Intermediário |
| Última revisão | Julho/2026 |
| Normas Relacionadas | ABNT NBR 6118, NBR 5674 e NBR 16747 |
Como a Maresia Ataca a Estrutura?
O concreto possui uma característica natural excelente: ele é altamente alcalino, o que cria uma camada microscópica de proteção ao redor do aço da armadura, mantendo-o protegido (fenômeno conhecido como passivação).
No entanto, o vento litorâneo carrega microgotículas de água salgada ricas em íons de cloreto. Esses cloretos depositam-se na superfície da edificação e, lentamente, penetram pelos poros do concreto. Quando atingem a armadura de aço, eles quebram essa barreira de proteção alcalina e dão início à corrosão galvânica.
O aço, ao corroer, gera a formação de ferrugem (óxido de ferro), que chega a ocupar um volume até 6 vezes maior do que o metal original. Esse aumento de volume gera uma pressão interna absurda, trincando o concreto de dentro para fora até expulsá-lo.
Sinais Clínicos da Patologia
A corrosão estrutural por ação marinha evolui em estágios claros. Ficar atento aos primeiros indícios evita intervenções complexas de alto custo:
- Manchas de ferrugem: Escorrimentos avermelhados ou acastanhados na superfície do reboco ou concreto;
- Fissuras longitudinais: Trincas que acompanham o desenho exato das vigas ou pilares;
- Estufamento do revestimento: Regiões da fachada ou tetos de sacada projetando-se para fora;
- Desplacamento de concreto: Queda de pedaços de concreto, deixando o aço oxidado e deteriorado exposto ao tempo.
Estratégias para Aumentar a Durabilidade
Em regiões de Classe de Agressividade Ambiental IV (como as zonas de respingo marinho), as ações devem ser enérgicas e técnicas. O combate eficaz envolve:
- Manutenção de Fachada Preventiva: Lavagem periódica das fachadas com água doce para remoção dos depósitos acumulados de sal;
- Uso de Inibidores e Vernizes Acrílicos: Pinturas impermeáveis e de alta resistência que barram a entrada da água e dos gases;
- Aumento do Cobrimento de Concreto: Garantir que as armaduras em novas intervenções ou reformas possuam a espessura de cobrimento mínima exigida pela NBR 6118.
Experiência da FHM Engenharia
Em vistorias e laudos periciais realizados nas orlas da nossa região, frequentemente observamos que reparos estéticos (como aplicar massa corrida e pintura sobre armaduras já oxidadas) aceleram a degradação e mascaram o colapso localizado. A correta recuperação envolve o lixamento do aço, aplicação de convertedores de ferrugem e recomposição com argamassa estrutural polimérica especial.
Conclusão
A maresia é inevitável no litoral, mas a corrosão estrutural não deve ser aceita como normal. A realização de inspeções prediais completas e periódicas permite detectar a profundidade da contaminação por cloretos antes que as fissuras apareçam, blindando juridicamente o síndico e estendendo drasticamente a vida útil da edificação.
• ABNT NBR 6118 — Projeto de estruturas de concreto — Procedimento.
• ABNT NBR 5674 — Manutenção de edificações — Requisitos para o sistema de gestão da manutenção.
• ABNT NBR 16747 — Inspeção Predial — Diretrizes, conceitos, terminologia e procedimento.